Sobre a noção de cibercultura, tal como defendida por Lévy




A noção de cibercultura defendida por Pierre Lévy, é envolvente, exibindo uma reflexão perspicaz, que nos leva a repensar os caminhos da humanidade e em especial, da aprendizagem, com o aparecimento das tecnologias digitais.

A cibercultura está relacionada com a utilização da internet e o processamento de dados, sendo resultado da utilização massiva de tecnologia, como computadores ou smartphones, que vieram influenciar os nossos costumes e modos de vida. Vivemos numa era de redes e conexão, onde as nossas revelações são partilhadas no ciberespaço, alcançando á distancia de um click, qualquer lugar do mundo. Ao espelhar a nossa cultura na vida online enquanto navegamos e interagimos na internet, coadjuvamos para fazer parte da cibercultura, marcando e influenciando gerações que já se habituaram a fazer tudo com o auxílio da tecnologia.

Os conceitos de ciberespaço e cibercultura, são destacados por Pierre Lévy na sua obra “Cibercultura”, onde aborda as consequências culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação. O autor Lévy (1999), define ciberespaço enquanto novo formato de comunicação, resultante da interconexão global dos computadores, que engloba a multiplicidade de informações e os indivíduos que navegam e produzem conteúdos nesse universo. Quanto á expressão cibercultura, Lévy (1999), particulariza a mescla de costumes, atitudes, pensamentos e valores que crescem em conjunto com o ciberespaço.

Devido às suas caraterísticas, a cibercultura é produzida por pessoas de todo o mundo, onde “a cada minuto que passa, novas pessoas passam a acessar a Internet, novos computadores são interconectados, novas informações são injetadas na rede” (Lévy, 1999, p.111). O crescimento da Internet conjugado com os avanços da tecnologia e a facilidade de aquisição dos dispositivos, proporcionam um suporte para a difusão da informação a uma escala universal, prevendo-se em breve, que toda a humanidade esteja conectada.

Segundo, Lévy (1999), a asseveração dos suportes digitais como meio privilegiado de colaboração e comunicação, levará á criação de padrões internacionais, no sentido de os dispositivos e programas tecnológicos coexistirem, caminhando rumo á universalização e ao abandono de soluções técnicas incompatíveis. Desta forma, “o significado último da rede ou o valor contido na cibercultura é precisamente a universalidade” (Lévy, 1999, p.113).

Para o crescimento deste espaço virtual de comunicação e relacionamento, designado por ciberespaço, o autor Lévy (1999), refere a existência de três princípios orientadores: a interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva.

Interpretando o primeiro princípio, considera-se que a conexão e a universalidade da comunicação são pedras basilares da cibercultura, onde “o menor dos artefactos poderá receber informações de todos os outros e responder a eles, de preferência sem fio”, (Lévy, 1999, p.127). A interconexão mundial de computadores e de todos os sistemas de comunicação eletrónica, pressupõem a criação de um espaço virtual de comunicação universal, comparável a um dilúvio de informação. 

O segundo princípio, está nitidamente encadeado no primeiro, onde grupos de indivíduos de diferentes países e culturas, desfrutam da internet através de comunidades virtuais, centradas em temas ou interesses comuns, aproveitando este espaço virtual para troca de ideias, compartilhar conhecimentos ou publicar conteúdos. 

Por último, o conceito de inteligência coletiva, que segundo Lévy, resulta da combinação de saberes compartilhados, resultando na aprendizagem coletiva e na troca de conhecimentos. Segundo o terceiro princípio, o ciberespaço é idealizado enquanto intelectual coletivo, onde cada um partilha os seus saberes, partindo da noção de que todo o ser humano detém algum conhecimento, mas que nenhum, possui todo o conhecimento. A inteligência coletiva é desta forma, o ideal da soma das inteligências individuais e o seu compartilhamento para todos os que tiverem acesso á tecnologia, utilizando o ciberespaço para “colocar em sinergia os saberes, as imaginações, as energias espirituais daqueles que estão conectados a ele”, (Lévy, 1999, p.131).

Três exemplos significativos de cibercultura: 1. Wikipédia, baseia-se no principio de uma enciclopédia digital, sendo um projeto de código aberto, escrito de maneira colaborativa na internet, por pessoas de todo o mundo. 2. Redes sociais, compostas por pessoas e organizações, são espaços virtuais onde as pessoas estão conectadas, partilham conteúdos e se relacionam, compartilhando valores e objetivos semelhantes. Existem dezenas de redes sociais, cada uma com os seus objetivos e públicos-alvo, sendo as mais conhecidas: Facebook, YouTube, WhatsApp, Instagram, Twitter, Linkedin, Pinterest, WeChat. 3. EAD, o conceito de ensino a distância, nomeadamente o elearning, recorre á internet e às ferramentas das TIC, para vencer a distância geográfica entre aluno e professor. A relação de ensino/ aprendizagem, é deste modo mediada pela utilização de tecnologia, onde as interações entre aluno e professor acontecem de forma síncrona ou assíncrona em plataformas digitais e ambientes virtuais de aprendizagem.

Em jeito de conclusão, a influência da cibercultura na atualidade é imensa, tornando a linha entre a realidade e o mundo virtual cada vez mais ténue. Coexistimos numa sociedade cada vez mais dependente da tecnologia, rubricada por diversos problemas sociais decorrentes da globalização e da acessibilidade às novas tecnologias; contudo desapareceram barreiras de tempo e espaço, possibilitando o acesso a novas oportunidades pela humanidade a qualquer momento e em qualquer lugar. Termino este comentário, com uma frase marcante do autor: “habitamos (ou habitaremos), portanto, o ciberespaço da mesma forma que a cidade geográfica e como parte fundamental de nosso ambiente de vida” (Lévy, 1999, p. 196).

Referências: Lévy, P. (1999). Cibercultura (Costa, C.I., trad.). Editora 34.

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